"Na Cachoeira já morou o Patriarca da Independência"

Documento publicado no Jornal do Guarujá em 28 de julho de 2006 - Entrevista: Marinaldo Nenke Simões - texto de Roberto Sassi - fotos do arquivo do Rato


 
Entrevista: Marinaldo Nenke Simões

Fonte: Jornal do Guarujá - sexta feira 28 de julho de 2006 - texto de Roberto Sassi - fotos arquivo/Rato

Vereador por quatro mandatos e vice-prefeito, Nenke conta a história da região onde nasceu - arquivo pessoal do Rato

A família Simões é uma das mais antigas de Guarujá. hà 78 anos (1928) Saul Simões veio de Portugal para o bairro da Cachoeira administrar sítios de banana. Tempos depois montou um bar-mercearia com o sócio Vitorino. Foi próprio Vitorino quem deu o apelido ao nosso entrevistado: Marinaldo Simões, que incorporou Nenke ao nome.

A história da Cachoeira remonta ao Patriarca da Independência, José Bonifácio de Andradada e Silva. Conta Nenke que José Bonifácio tinha uma casa no alto do morro da Cachoeira e ainda hoje há vestígios dessa construção e até de troncos onde se amarravam os escravos.

As extensas terras da região eram ocupadas por bananais, incluindo a Cachoeira, Vila Zilda, Morrinhos e de propriedade da Província Carmelitana Fluminense, do Convento do Carmo.

"Meu pai se tornou o cobrador dos impostos da Província e os ocupantes pagavam uma espécie de aluguel. Todo o mês vinha o frei Justino para levar o dinheiro que meu pai arrecadava", explica Marinaldo nenke Simões, que nasceu no bairro da Cachoeira em 1954, e foi o único morador a conquistar mandatos eletivos (quatro) de vereador e um de vice-prefeito.

Os bananais eram da família de Áurea Gonzalez Conde e como não havia estradas, os rios serviam para escoar a produção em chatões, que chegavam até o estuário de Santos, ou ao Largo do Candinho, em Bertioga e descarregada em navios que seguiam para a Europa, mais tarde para a Argentina. Os bananais migraram para outras regiões de São Paulo, como o Vale do Paraíba e as extensas áreas deram lugar a ocupações, algumas irregulares, outras por transferências de famílias do Morro da glória (junto ao viaduto) ou do Perequê.

A área da Cachoeira, parte ficou com José de Almeida. "O povo foi chegando, invadindo, meu pai deixou de cobrar o aluguel porque a província passou a região para a Áurea Conde, diziam que por 50 mil réis, desde a divisa com Bertioga, até a Vila Zilda, onde existe um engenho de cana-de-açúcar e era produzida uma cachaça famosa, a Pérola do Atlântico. Ali também havia criação de frangos, mangueirão de porcos, olária, tudo do José Almeida".

Saul Simões, o pai do Nenke foi trabalhar com Atílio Gelsomini, onde hoje esta a Vila Zilda. "Atílio ficou em débito com o governo do Estado e pagou com as terras. Quando o ex-prefeito Raphael Vitielo tirou as famílias do morro da Glória, que estava caindo, o então governador Laudo Natel cedeu a gleba para o município. Em homenagem ao governador, o prefeito deu o nome da esposa de Laudo à Vila.

Saco do Funil - Conta Nenke que antigamente toda a água servida em Guarujá vinha do Saco do Funil, áreas atrás do Morrinho. "Não havia a captação em jurubatuba. Foi feita uma represa no Morro do macaco, junto ao túnel e a água era bombeada até a Padaria Tupã, depois chegava na rua Rio de Janeiro, no morro, e arnazenada em caixas de água para ser distribuida".

Quando jaime Daige era prefeito proibia invasões. Junto a Cachoeira uma vila surgia e seus barracos eram derrubados. "Então as famílias construiam a noite. Assim surgiu o nome: Vila da Noite que ocupava um lixão. Do Perequê vieram algumas famílias que ocuparam a Santa Clara e a Vila Zilda , como dona Marlene da Abrasti.

De dono de um bar e armazem na Cachoeira, onde até hoje tem propriedade sua mãe dona Ursula e la ainda reside seus irmãos, Nenke foi o único que ingressou na vida política. "O único telefone público estava instalado no meu estabelecimento. Ali também era uma espécie de correios. Quando alguém precisava de ambulância me procurava, o mesmo em casos de falecimento. Por isso sempre lutei por uma funerária municipal. As pessoas pobres morriam e a família não tinha condições de pagar o enterro. A gente fazia uma lista com as contribuições. Só de parto ajudei em três, até conseguir levar as mães para o hospital".

A vila Zilda nasceu quando o Morro da Glória desmoronou e era assim em 1974 - arquivo pessoal do Rato

Hoje devem morar cerca de 35 mil pessoas na região, desde a Piaçaguera até Morrinhos IV. "Devemos ter acima de 20 mil eleitores naquela região, mas a Cachoeira, o mais antigo bairro ainda é o mais esquecido. Alguns melhoramentos chegaram, mas falta arruamento da Vila da Noite e títulos de propriedade. Só algumas famílias têm, conquistaram junto à Provincia carmelitana, por usucapião". O Avanço foi grande desde 1982 para cá, reconhece Nenke, mas ainda falta muita coisa.

Trabalhando desde 11 anos de idade, começou com Eduardo Risk que tinha comércio e loja de prataria no Cassino. "Eu cuidava do cavalinho e distraia as crianças enquanto as mães faziam compras". Depois, dona Juliana Tybor, que assessorava Dom Domênico o levou para o hospital, onde ajudava também na igreja. "Ele era uma pessoa maravilhosa".

Nenke, trabalhou no Mercado municipal, na banca da dona Tereza, em vários restaurantes e lanchonetes e hoje se orgulha de ser um bom cozinheiro. Pelo menos em sua pousada, a Guaru-Bora em São Sebastião, (ninguém reclama).

Da política - que ainda não abandonou, guarda boas recordações, mas lamenta que o perfil do eleitor mudou bastante. "Antes as pessoas queriam ajudar o político a se eleger e depois cobrar trabalho. Hoje, querem um emprego de cabo eleitoral, são pagos e ai, o político não tem mais compromisso. Mesmo não tendo sido eleito para este mandato de vereador fico contente porque praticamente dobrei minha votação:2.780 votos, mas por causa da legislação eleitoral, mesmo tendo sido o 9º mais votado, meu partido fez duas ao invés de três cadeiras".

Festejos juninos - De uma coisa Nenke reclama: após 24 anso organizando e apresentando os Festejos Juninos - por questões de ordem política foi afastado das funções. "Os mais antigos sabem como os festejos surgiram: eram dois clubes de futebol, o Cachoeira e o Independente e nós fazíamos a festa para angariar recursos. As famílias colaboravam levando brindes para o bingo. E ainda fazíamos a eleição da Miss Festejos. Agora tudo mudou. Antes, não havia violência, nem brigas. Hoje até tiroteios acontecem, por falta de segurança. Fico muito triste com isso e lembro que crianças que dançavam no palco que eu animava hoje são mães, algumas avós e sempre me perguntam porque eu abandonei a festa. Eu não abmdonei, eles - do poder - é que me tiraram". ::


O nosso objetivo é apenas divulgar aspectos da história da Ilha de Santo Amaro e essa entrevista é um resgate dessa história, que de modo algum pode ser perdida com o passar do tempo. Manteve-se os devidos créditos
Caso haja alguma restrição - comunique-nos - Prof. Silvio - Escola Rene Rodrigues